27 fevereiro, 2015

[:] As Competências Socioemocionais e os desafios no cotidiano escolar.

Nós somos fruto de um eterno diálogo entre consciente e inconsciente, já dizia Carl Jung. Acredito ser impossível falar de emoção sem relacionar o pensamento Junguiano. O inconsciente nos permite absorver o mundo a nossa volta de maneira intensa e registramos tudo de forma muito significativa em nossa memória. E essa memória será o alicerce de nossa personalidade e base de desenvolvimento de nossas habilidades cognitivas e principalmente emocionais. Portanto, garantir que uma criança tenha espaço para se desenvolver emocionalmente é também tarefa da escola, sobretudo de uma escola que atende uma comunidade tão carente como a nossa, eis nosso grande desafio.

Em todas as turmas do 1° ao 5° ano com as quais trabalho, lecionando aulas de Língua Inglesa, em uma escola na periferia de Caraguatatuba -SP, é visível a necessidade de se trabalhar o lado emocional do educando. Em nossa comunidade observamos crianças muito carentes e com histórico de vida bem complicado. São muitos os filhos provindos de famílias desestruturadas, crianças que vivem em ambiente violento e consequentemente trazem essa violência e agressividade para sala de aula. Daí, o grande número de conflitos diários, onde demonstram sua grande dificuldade de lidar com suas próprias emoções e com as do colega. São conflitos que às vezes pode parecer , aos nossos olhos de adultos amadurecidos, conflitos tão pequenos e tão fúteis. Porém, para aquela criança que traz em sua pequena bagagem o peso de uma vida sem afeto, esses conflitos são a sua guerra e dessa maneira lutam por tudo, pelo lápis, pela borracha, pela cadeira, pelo apelido, por tudo que fere seu pequeno ego em desenvolvimento. Talvez a coragem e pré-disposição para esse enfrentamento gratuito, seja o fato de que o colega é quase da mesma idade, ou seja o seu “inimigo” dentro da escola não é um adulto mais forte, mas sim alguém que ele pode enfrentar com força igual.

Uma vez reconhecida essa necessidade ajudá-los a desenvolver seu lado emocional, visando não apenas o melhor aproveitamento dos estudos, mas também um amadurecimento sadio e convivência harmoniosa com os demais, nos deparamos com um dilema: como fazer isso? Como garantir que essas crianças tenham aqui esse espaço em meio a tantas outras obrigações que a escola tem que dar conta? Como cumprir o currículo, os conteúdos programáticos e ainda desenvolver atividades que estimulem o desenvolvimento emocional do nosso educando?

Difícil encontrar uma só resposta. Ao pensar nisso, várias dúvidas e questionamentos vêm a minha mente. Começando pela heterogeneidade de pensamento do corpo docente no qual estou inserida, será que todos concordarão com a ideia de que é também responsabilidade da escola desenvolver o lado emocional da criança? Ou muitos alegarão que essa seria uma responsabilidade exclusiva da família? Outro ponto para pensar, caso seja um objetivo do grupo trabalhar o desenvolvimento emocional dos nossos educandos, será que a escola está mesmo disposta a fazer toda e qualquer mudança necessária par atingirmos esse objetivo? E nós corpo docente, o quanto cada um está disposto a mudar sua estrutura de sala de aula e/ ou mudar sua prática educativa para atingirmos tal objetivo? Se houver essa disposição, será que a escola vai mesmo ter condições de proporcionar o apoio necessário que os docentes irão precisar?

Enquanto não encontro respostas para tais questões, faço algumas reflexões pensando em minha própria experiência. Pensando na concepção de memória Junguiana, acredito que tudo começa com o corpo e a disposição desse corpo para se relacionar. As crianças passam em média cinco horas dentro da sala de aula, sentadas. São poucos os momentos em que esses corpinhos são provocados a se movimentar, a mudar de lugar e consequentemente ter uma outra perspectiva do outro, da turma e da vida escolar. Algumas estratégias que envolvam movimento podem ser interessantes como:
  • Mudar a disposição das carteiras periodicamente seria um primeiro passo para provocar essa percepção diferente do espaço e da relação desse ser com o espaço. Consequentemente a relação com o colega, os professores e com a escola. Quando mudamos de lugar, mudamos nosso ponto de vista e também nossa perspectiva em relação ao mundo que nos cerca.
  • Mapear a sala e mudar esse mapeamento estrategicamente e periodicamente, também pode ser uma alternativa. Assim evitamos as “panelinhas” e provocamos o educando a se relacionar com outros colegas diferentes.
E outras que trabalhem diretamente com a formação de caráter. 
  • Criar projetos que desenvolvam valores como:  solidariedade, compaixão e também disciplina, mas não no sentido de obediência, mas sim no sentido de responsabilidade, respeito com o próximo, com o espaço e com o trabalho desenvolvido no qual o educando também faz parte e é protagonista. 
Enfim, precisamos garantir que a criança sinta satisfação em estar interagindo com o outro no espaço escolar. O desenvolvimento das relações interpessoais precisam ganhar importância, peso e espaço em nosso currículo. Ser alfabetizado é tão importante quando saber amar ao próximo e saber tolerar, respeitar e aprender com as diferenças. 


Karina Guedes 
Arte-educadora e professora de Língua Portuguesa/ Língua Inglesa e suas respectivas literaturas.

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