26 outubro, 2009

[:] A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E A OPÇÃO PELOS RICOS

por Marilene Felinto

A Universidade de São Paulo (USP) é das mais insensíveis instituições no que diz respeito a atender reivindicações do movimento social por vagas para os pobres nas universidades públicas - movimento que, especialmente a partir dos anos de 1990, busca de diversas formas a democratização do acesso ao ensino superior público para estudantes formados no ensino médio público.
Um conjunto de medidas que a USP lançou para o vestibular deste ano de 2007, com a intenção de favorecer o ingresso e a permanência de alunos de escolas públicas em seus cursos, vem sendo chamado de "esmola" por organismos da sociedade civil envolvidos na luta pela igualdade no acesso. As medidas constituem-se em: bônus de 3 por cento na nota do vestibular, redução de cem para noventa no número de questões do exame e a concessão de oitocentas bolsas de 330 reais a estudantes de graduação com renda familiar de até 1.500 reais.
Não se pode negar que há algum avanço na percepção de que cabe principalmente à universidade corrigir a gritante injustiça em que se funda seu sistema de seleção. Na minha época de USP, há exatos trinta anos, quando ali ingressei, eu que vinha de escola pública e família de baixa renda estudava de manhã e trabalhava às tardes e algumas noites para poder me manter no curso e me formar. A universidade não oferecia ajuda de nenhuma espécie aos alunos de graduação, não fazia nenhuma distinção entre a minoria de filhos de pobres que ascendia àquele mitificado Olimpo e a grande maioria de filhos de milionários saídos de escolas particulares caríssimas e que chegavam ao campus nos seus carros do ano. Foram necessários trinta anos para o paquiderme dar um passo nesse sentido.
Contudo, a própria USP (e outras instituições públicas de ensino superior) vem questionando o famigerado "presente" que teria dado a estudantes pobres este ano, uma vez que, a despeito do bônus, caiu o número de inscritos formados na Rede Pública para o vestibular 2007 da Fuvest (Fundação para o Vestibular, instituição responsável pelo vestibular da USP).


DESCONHECIMENTO
Os comentários de uma autoridade da USP e de outra da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), publicados em um jornal de São Paulo em novembro de 2006, são reveladores dessa falta de sensibilidade ou, ao menos, de uma certa indiferença dessas instituições para com as justas reivindicações dos organismos sociais: a) Franco Lajolo, vice-reitor da USP, diz que "precisamos fazer estudos para explicar esse movimento com precisão" (a queda no número de inscritos na Fuvest formados no ensino médio público) e acha que uma possível explicação está no ProUni (programa do governo Lula que concede bolsas de estudo a estudantes de baixa renda em universidades particulares); b) Luiz Eugênio de Mello, pró-reitor de graduação da Unifesp, instituição que oferece cotas desde 2005, afirma que "os alunos da rede pública vêem dificuldade em se manterem no ensino superior, mesmo que não haja mensalidade e o ingresso na universidade seja facilitado". Também na Unifesp, mesmo com esse benefício, o número de inscritos da rede pública caiu. "Ao que parece, os alunos da rede pública estão questionando se o curso vai trazer benefícios reais ou se é melhor já cair no mercado de trabalho", conclui Mello.
Ao que parece, o pró-reitor fala sem conhecimento de causa. Em reportagem desta Caros Amigos (dezembro 2006) em que fazia um balanço do sistema de cotas adotado por várias universidades públicas até hoje, o jornalista Marcos Zibordi mostrou que há, entre os estudantes que ingressaram por meio de cotas, "muita luta para permanecer estudando". Eles geralmente já trabalham, mas formam grupos de estudos, e se reúnem para estudar aos sábados, domingos e feriados. Zibordi demonstra também que o desempenho deles não compromete em nada a qualidade das universidades. "A maioria dos relatos e estatísticas comprova (...) que o desempenho acadêmico do cotista é similar e às vezes superior ao dos colegas não-cotistas", diz Zibordi. "Motivos? Obstinação, consciência de oportunidade, muitos são o primeiro membro da família num curso superior. Tamanho rendimento liquidou a contra-argumentação do 'mérito acadêmico', visão estreita cujo único parâmetro é a nota. Na Universidade de Brasília (UnB), cotistas e não-cotistas obtêm praticamente as mesmas médias. Na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o desempenho acadêmico dos primeiros cotistas em 2003 foi similar ao da média geral. Suas notas no vestibular tinham sido muito inferiores. 'Isso sugere que o vestibular tradicional realmente não pode servir para classificar os melhores alunos', alerta o pró-reitor."
De modo que, contradizendo o vice-reitor da USP, não é necessário fazer "estudo" nenhum para concluir sobre o óbvio: que a principal barreira para o ingresso de estudantes pobres à USP é o vestibular. É com esse vestibular que se precisa acabar - exame absolutamente desvinculado da realidade do ensino médio público atual, no qual não há nem mesmo aprendizagem dos conteúdos exigidos. A própria USP é responsável por alimentar diuturnamente a degradação do ensino médio público. Afinal, não saem da USP os professores que vão dar aula nas escolas públicas das abandonadas periferias de São Paulo. Saem, na sua grande maioria, de faculdades privadas de terceira linha. Os formandos da USP vão lecionar para os filhos dos outros ricos, nas escolas particulares de luxo.
É claro que os alunos das escolas públicas preferem tentar o Prouni à Fuvest: o primeiro, que leva em conta a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e a condição financeira do estudante, praticamente o livra do vestibular. Num país onde, segundo dados do Ministério da Educação (MEC), menos de 8 por cento dos jovens entre 20 e 24 anos estão matriculados em instituições de ensino superior, e que está muito atrasado em relação aos países de nível de desenvolvimento semelhante, o vestibular já devia ter sido extinto há tempos.


EXCLUSÃO
Um interessante histórico da resistência da Universidade de São Paulo a ceder seus bancos a estudantes pobres encontra-se na tese de mestrado "Cursinhos Pré-Vestibulares Alternativos no Município de São Paulo (1991-2000): A Luta pela Igualdade no Acesso ao Ensino Superior", de João Galvão Bachetto, Faculdade de Educação da USP, 2003.
O que se espera da USP é que no mínimo 50 por cento de suas vagas sejam destinadas aos alunos das escolas públicas. Se isso vai ser feito via meritocracia - a pior das vias, já que "a meritocracia contradiz, tanto quanto qualquer outra oligarquia, o princípio da igualdade que rege uma democracia igualitária", como diz Hannah Arendt ("A Crise da Educação", em Entre o Passado e o Futuro) - ou via concessão de cotas para este ou aquele grupo, pouco importa. A USP sabe quem é pobre e quem não é. Só não age porque trabalha a serviço da alta burguesia (assim como a Unifesp, a Unesp etc.), classe social que, como dizia Foucault, vela para que a universidade continue a ser um lugar de exclusão. A universidade, segundo ele, não só exclui o estudante da realidade, como lhe transmite "um saber de tipo tradicional, démodé, acadêmico, um saber que não tem nenhuma relação direta com as necessidades e com os problemas do mundo de hoje. Essa exclusão é reforçada pela organização, em torno do estudante, de mecanismos sociais fictícios, artificiais, de uma natureza quase teatral (as relações hierárquicas, os exercícios universitários, a banca examinadora, todo o ritual de avaliação)". ("Estratégia, Poder-Saber").


Sobre a autora: Marilene Felinto é escritora e jornalista
Fonte: Revista Caros Amigos - Fevereiro /2007

04 maio, 2009

[:] A EDUCAÇÃO E O GOVERNO DOS TUCANOS

Imperdível as reportagens da revista Caros Amigos de abril. Ainda é possível encontrar nas bancas.

^^

01 maio, 2009

[:] PORTAL DO PROFESSOR

Um dos canais de educação do MEC.
Disponibiliza alguns materiais para trabalho além de informações interessantes para quem pretende atuar no magistério.

Segue o link:

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/index.html

30 abril, 2009

[:] TV ESCOLA

Você já conhece?

É um canal do Ministério da Educação. Disponível na TV e também na WEB.
Interessante e interativo. Você pode assistir ao vivo e também baixar a programação mensal para acompanhar os programas.



Segue um vídeo da Tv Escola postado no You Tube:

28 abril, 2009

[:] ESCOLA ESTADUAL DE PERIFERIA : EDUCAÇÃO PARA COISA NENHUMA

Por Marilene Felinto

Para onde irão os meninos e meninas que se formam, neste final de 2005, nas escolas estaduais da periferia? Numa pesquisa da qual participei com estudantes que terminam agora o ensino médio nas escolas públicas do mais abandonado extremo sul da cidade de São Paulo, à pergunta sobre qual curso universitário gostariam de fazer, se pudessem, houve respostas do tipo: "bombeiro", "telemarketing", "secretariado", "auto-elétrico", "auxiliar de enfermagem" e "policial militar". Ainda que declarações assim tenham vindo de uma minoria, elas são o indício evidente de que uma tragédia sem precedentes está em curso há décadas no ensino público de São Paulo (e do país todo, como se sabe). A maioria absoluta dos alunos não tinha conhecimento a respeito de datas de exame vestibular, mal distinguia universidade pública de universidade privada, não tinha prestado o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e não sabia direito o que é um curso pré-vestibular.
A maioria absoluta desses jovens na faixa etária entre 17 e 23 anos está se formando para nada, não recebeu o que a Lei de Diretrizes e Bases do ensino define como "educação escolar com padrões de excelência". O ensino médio, que deveria ter assegurado a eles "a formação indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores", manteve-os na escuridão dos semi-analfabetos, incapazes de distinguir um curso técnico de um curso superior. Não estão habilitados para as "finalidades específicas" do ensino médio, as quais deveriam ser, no discurso oficial, "desenvolvidas por um currículo que destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania".
Essas "finalidades" passam longe das escolas estaduais da periferia de São Paulo, elas que não têm nem princípios nem projetos pedagógicos - são um vazio frequentado por professores insatisfeitos, mal formados e mal pagos; um vazio por onde rapazes e moças vagam, alheios ao fato de que não estão recebendo ali a formação plena dos sujeitos a que teriam direito, num processo de produção contínua de conhecimentos. Num dos momentos da mencionada pesquisa, enquanto entrevistávamos um estudante, passou ali perto um dos professores da escola. Ao ouvir a pergunta feita ao aluno ("quais os planos dele para o futuro, agora que terminava o ensino médio"), o professor fez, risonho, um gesto chulo com a mão em nossa direção. O gesto, em palavras do próprio estudante, indicava a profecia do professor para o futuro do rapaz: "rodar bolsinha" na vida.
Num misto de indignação e revolta, nós, os pesquisadores, nos perguntamos se seria o caso de denunciar o professor à delegacia de ensino. Minha decisão pessoal foi de não denunciar - não antes de denunciar as autoridades do PSDB, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, seu secretário da "Educação", Gabriel Chalita, e o prefeito da cidade, José Serra. Não antes de denunciar que os professores da periferia chegam às escolas deformados pela educação "superior" recebida em faculdades de esquina, de beiras de estrada, autorizadas a funcionar às pencas pelo mesmo PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua trupe de especialistas em lixo educacional: o ex-ministro da "Educação", Paulo Renato, no comando.
Os jovens que se formam este ano no ensino médio público da periferia não adquiriram, portanto, a "compreensão do significado da ciência, das letras e das artes", nem tampouco dominam a língua portuguesa culta, que lhes servisse de instrumento para alcançar o desenvolvimento económico, social, cultural e político - que lhes garantisse direitos básicos de cidadania e liberdade pessoal. Uma das estudantes, no momento da entrevista, soltou a seguinte frase: "Nós veve (sic) só com o salário do meu pai". Outro aluno escreveu, numa redação, que tinha "comvixssão" de que um dia subiria na vida. Outra escreveu que quer seguir a profissão de "arcteta".
Para onde vão esses jovens "formados" no ensino médio público? Para onde vai a moça magra e vagarosa, de 19 anos, que não sai de casa sozinha? "Porque aqui (em São Paulo) é tudo longe", confessou ela. Entrou na sala hesitante, tímida, arrastando um defeito em uma das pernas. Tinha a aparência vaga da subnutrição. Viera, havia um ano, do interior de outro Estado, órfã de mãe, assassinada pelo pai. Passara a morar com a irmã em São Paulo, já que o pai tinha virado presidiário no interior. "Não sei o que quero fazer", respondeu a moça, o olhar perdido. Instada, arriscou uma indagação: "Você acha que é muito difícil a pessoa ser professora de criança?" A pergunta me deixou perplexa. E eu quase engasguei de dó para dizer o que quer que fosse àquela moça que era o desamparo em pessoa.
Não se pode afirmar que a menina magra e seus colegas de classe vivem na cidade de São Paulo - eles não vivem nem mesmo em bairros, habitam "zonas" cinzentas (a sul, a leste), imensidões de miséria na periferia abandonada, na lonjura que o descaso do poder público insiste em ignorar. No extremo da zona sul de São Paulo - bairros de Marsilac e Parelheiros, a 50 quilómetros do centro -, não há um único hospital, nenhuma agência bancária, nenhuma agência dos Correios, nenhuma biblioteca nem salas de cinema ou teatro. Pelo precário sistema de transporte coletivo, leva-se três horas para chegar ao centro da cidade.
Os responsáveis imediatos por essa tragédia - o governador Alckmin e o prefeito Serra - estão se candidatando alegres e insolentes à presidência da República. Para quê? Para espalhar ainda mais país afora a política perversa do PSDB, socialmente excludente, que não atende às necessidades da população, que fortalece a desigualdade e a injustiça social; a política do lesa-juventude, lesa-povo e lesa-nação.
É preciso tirar das mãos dos Estados a educação de ensino médio, é preciso entregá-la aos municípios, para que se ofereça aos meninos e meninas senão uma chance de cidadania, ao menos a ilusão de que poderão exigir e reivindicar na sua cidade o direito à educação gratuita e de qualidade. Ao menos a ilusão.

Sobre a autora: Marilene Felinto é escritora e jornalista
Fonte: Revista Caros Amigos - Janeiro/ 2006