30 abril, 2009

[:] TV ESCOLA

Você já conhece?

É um canal do Ministério da Educação. Disponível na TV e também na WEB.
Interessante e interativo. Você pode assistir ao vivo e também baixar a programação mensal para acompanhar os programas.



Segue um vídeo da Tv Escola postado no You Tube:

28 abril, 2009

[:] ESCOLA ESTADUAL DE PERIFERIA : EDUCAÇÃO PARA COISA NENHUMA

Por Marilene Felinto

Para onde irão os meninos e meninas que se formam, neste final de 2005, nas escolas estaduais da periferia? Numa pesquisa da qual participei com estudantes que terminam agora o ensino médio nas escolas públicas do mais abandonado extremo sul da cidade de São Paulo, à pergunta sobre qual curso universitário gostariam de fazer, se pudessem, houve respostas do tipo: "bombeiro", "telemarketing", "secretariado", "auto-elétrico", "auxiliar de enfermagem" e "policial militar". Ainda que declarações assim tenham vindo de uma minoria, elas são o indício evidente de que uma tragédia sem precedentes está em curso há décadas no ensino público de São Paulo (e do país todo, como se sabe). A maioria absoluta dos alunos não tinha conhecimento a respeito de datas de exame vestibular, mal distinguia universidade pública de universidade privada, não tinha prestado o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e não sabia direito o que é um curso pré-vestibular.
A maioria absoluta desses jovens na faixa etária entre 17 e 23 anos está se formando para nada, não recebeu o que a Lei de Diretrizes e Bases do ensino define como "educação escolar com padrões de excelência". O ensino médio, que deveria ter assegurado a eles "a formação indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores", manteve-os na escuridão dos semi-analfabetos, incapazes de distinguir um curso técnico de um curso superior. Não estão habilitados para as "finalidades específicas" do ensino médio, as quais deveriam ser, no discurso oficial, "desenvolvidas por um currículo que destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania".
Essas "finalidades" passam longe das escolas estaduais da periferia de São Paulo, elas que não têm nem princípios nem projetos pedagógicos - são um vazio frequentado por professores insatisfeitos, mal formados e mal pagos; um vazio por onde rapazes e moças vagam, alheios ao fato de que não estão recebendo ali a formação plena dos sujeitos a que teriam direito, num processo de produção contínua de conhecimentos. Num dos momentos da mencionada pesquisa, enquanto entrevistávamos um estudante, passou ali perto um dos professores da escola. Ao ouvir a pergunta feita ao aluno ("quais os planos dele para o futuro, agora que terminava o ensino médio"), o professor fez, risonho, um gesto chulo com a mão em nossa direção. O gesto, em palavras do próprio estudante, indicava a profecia do professor para o futuro do rapaz: "rodar bolsinha" na vida.
Num misto de indignação e revolta, nós, os pesquisadores, nos perguntamos se seria o caso de denunciar o professor à delegacia de ensino. Minha decisão pessoal foi de não denunciar - não antes de denunciar as autoridades do PSDB, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, seu secretário da "Educação", Gabriel Chalita, e o prefeito da cidade, José Serra. Não antes de denunciar que os professores da periferia chegam às escolas deformados pela educação "superior" recebida em faculdades de esquina, de beiras de estrada, autorizadas a funcionar às pencas pelo mesmo PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua trupe de especialistas em lixo educacional: o ex-ministro da "Educação", Paulo Renato, no comando.
Os jovens que se formam este ano no ensino médio público da periferia não adquiriram, portanto, a "compreensão do significado da ciência, das letras e das artes", nem tampouco dominam a língua portuguesa culta, que lhes servisse de instrumento para alcançar o desenvolvimento económico, social, cultural e político - que lhes garantisse direitos básicos de cidadania e liberdade pessoal. Uma das estudantes, no momento da entrevista, soltou a seguinte frase: "Nós veve (sic) só com o salário do meu pai". Outro aluno escreveu, numa redação, que tinha "comvixssão" de que um dia subiria na vida. Outra escreveu que quer seguir a profissão de "arcteta".
Para onde vão esses jovens "formados" no ensino médio público? Para onde vai a moça magra e vagarosa, de 19 anos, que não sai de casa sozinha? "Porque aqui (em São Paulo) é tudo longe", confessou ela. Entrou na sala hesitante, tímida, arrastando um defeito em uma das pernas. Tinha a aparência vaga da subnutrição. Viera, havia um ano, do interior de outro Estado, órfã de mãe, assassinada pelo pai. Passara a morar com a irmã em São Paulo, já que o pai tinha virado presidiário no interior. "Não sei o que quero fazer", respondeu a moça, o olhar perdido. Instada, arriscou uma indagação: "Você acha que é muito difícil a pessoa ser professora de criança?" A pergunta me deixou perplexa. E eu quase engasguei de dó para dizer o que quer que fosse àquela moça que era o desamparo em pessoa.
Não se pode afirmar que a menina magra e seus colegas de classe vivem na cidade de São Paulo - eles não vivem nem mesmo em bairros, habitam "zonas" cinzentas (a sul, a leste), imensidões de miséria na periferia abandonada, na lonjura que o descaso do poder público insiste em ignorar. No extremo da zona sul de São Paulo - bairros de Marsilac e Parelheiros, a 50 quilómetros do centro -, não há um único hospital, nenhuma agência bancária, nenhuma agência dos Correios, nenhuma biblioteca nem salas de cinema ou teatro. Pelo precário sistema de transporte coletivo, leva-se três horas para chegar ao centro da cidade.
Os responsáveis imediatos por essa tragédia - o governador Alckmin e o prefeito Serra - estão se candidatando alegres e insolentes à presidência da República. Para quê? Para espalhar ainda mais país afora a política perversa do PSDB, socialmente excludente, que não atende às necessidades da população, que fortalece a desigualdade e a injustiça social; a política do lesa-juventude, lesa-povo e lesa-nação.
É preciso tirar das mãos dos Estados a educação de ensino médio, é preciso entregá-la aos municípios, para que se ofereça aos meninos e meninas senão uma chance de cidadania, ao menos a ilusão de que poderão exigir e reivindicar na sua cidade o direito à educação gratuita e de qualidade. Ao menos a ilusão.

Sobre a autora: Marilene Felinto é escritora e jornalista
Fonte: Revista Caros Amigos - Janeiro/ 2006