16 abril, 2015

[:] Porque os professores de São Paulo estão em greve há 32 dias?

A pauta de reivindicações é extensa e angustiante. É importante ressaltar que os professores pedem não apenas reajuste salarial, mas também melhores condições de trabalho, o que implica em melhores condições de estudo para os estudantes. Por exemplo, ao pedir que sejam matriculados apenas 25 alunos por sala, uma vez que é impossível desenvolver qualquer trabalho significativo nas atuais turmas de 45-50, quem se beneficia é principalmente o estudante. Pois, terá aulas com mais qualidade e um melhor aproveitamento de estudos. E é esse o ponto mais importante a ser observado, toda a luta do professor é para que ele simplesmente consiga trabalhar, consiga lecionar e cumprir o seu papel de agente transformador da sociedade. Talvez isso incomode tanto, né? Porque nosso trabalho é ajudar o jovem a desenvolver o pensamento e construir conhecimentos. A quem interessa uma juventude pensante?

Sim, é verdade que a remuneração justa é parte fundamental da pauta. Quem estaria satisfeito em ter cursado ensino superior e nas atuais condições impostas pelo governo estadual de SP, receber menos do que qualquer outro servidor público com o mesmo grau de formação? A equiparação salarial é uma forma de respeitar os direitos trabalhistas do professorado.

Outra reivindicação é o fim do corte de verbas que as escolas sofreram no início do ano. Em janeiro, o governo estadual cortou 30% de uma das principais verbas que as escolas recebem para a manutenção geral dos prédios e compra de material de uso diário. Em algumas escolas falta até papel higiênico. Isso é um absurdo, uma vez que moramos no estado que arrecada o maior PIB do país. 
O governo alega que o corte geral nas verbas dá–se por conta da atual crise. O cômico desse argumento é que nesse mesmo ano de 2015, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) aumentou o seu próprio salário e de seus secretários, que já são salários equiparados com os dos outros parlamentares de outros estados, só pra lembrar. Outra justificativa que vem sendo repetida como um mantra na grande mídia,  é que nos últimos quatros anos foi feito um reajuste de 45% no salário dos professores, mas ninguém explica que esse valor diluído ao longo desses quatro anos não supera a inflação, ou seja, não adiantou nada, os professores ainda ganham menos do que deveriam ganhar. 

No entanto, como já foi dito, a greve não é apenas por causa do reajuste salarial e questões financeiras, é também por uma escola onde seja realmente possível estudar e trabalhar. As escolas da rede estadual de SP, sobretudo as escolas periféricas encontram-se abandonadas.
As degradações são muitas, o desestruturado sistema de ensino no qual os professores dessa rede são obrigados a trabalhar, apresenta inúmeras falhas que comprometem não apenas o aprendizado do estudante mas também a saúde física e emocional do professor. 

Hoje, temos em todo o estado muitos professores afastados por doenças decorrentes da pesada e desumana carga de trabalho, pois para complementar a renda, uma vez que o salário base é insuficiente, são obrigados a duplicar sua jornada trabalhando nas redes de ensino particular, ou até mesmo em outras áreas como: o comércio ambulante na venda cachorro quente, pipoca, artesanato, etc.

Dentre os argumentos furados, com que o governo paulista tenta justificar sua negligência, está o tal bônus que alguns professores receberam. O atual sistema de bonificação, que funciona na realidade como um sistema de produção de analfabetos funcionais, não atende as necessidades financeiras. e atinge a estrutura de ensino. Uma vez que em função de se cumprir as metas estabelecidas para o recebimento do tal “bônus”, as escolas precarizam as práticas de ensino e aprendizado, limitando –se a decoreba das famosas apostilas. Ora, decorar não é saber. Quem decora, esquece. Quem que aprende, sabe para a vida toda. Uma amostra dessa incoerência, é que as mesmas escolas que ganham tal bonificação, colocam todo ano no mercado de trabalho centenas de analfabetos funcionais. Ou seja, se tivessem aprendido de verdade, dentro de uma proposta pedagógica que visasse a construção do conhecimento, dificilmente teríamos que encarar esse dado nefasto. 

Eu poderia ficar aqui por páginas e páginas relatando os problemas e dificuldades que o professor, que se encoraja a trabalhar numa escola pública, enfrenta atualmente. Mas preciso citar outras coisas.
O fato indiscutível aqui é que motivos para entrar em greve não falta, senhor governador!!!
Os professores entraram em greve porque não tiveram outra alternativa. Afinal, como mostrar ao seu empregador que você não vai se sujeitar a trabalhar de forma quase que escrava? 

Desde o dia 13, mas de 30 mil professores estão longe das salas de aulas, levantando o movimento grevista em todo o estado, essa greve vem se tornando uma verdadeira queda de braço entre empregador e trabalhador. O governo por sua vez, vem tomando algumas medidas estapafúrdias na tentativa de enfraquecer e desmoralizar o nosso movimento. A começar, pelo silêncio da mídia que trabalha a seu favor. Desde o início da greve vários atos e protestos têm acontecido em todo o estado, mas a imprensa a mando de seu capataz, simplesmente finge que não está acontecendo. A imprensa golpista, simplesmente não fala da greve e quando fala é a favor do governo, repetindo o mantra do reajuste fictício dos 45%.  Todavia, através da internet com seus blogs de mídia alternativa e redes sociais, o movimento ganhou força e repercussão nacional. 

Na tentativa de tentar esconder a greve dos olhos da população, o governo estatual, tomou algumas medidas como: 
  • O lançamento de um cadastro emergencial para que qualquer estudante desde o primeiro ano, de qualquer curso universitário, possa atuar como professor eventual em nossas escolas. Dessa maneira, os estudantes não teriam motivos para faltar e fortalecer o movimento. Porém, o que poucos sabem, é que essas aulas não acontecem, simplesmente porque essas pessoas não têm preparo nenhum para lecionar. Pense bem no absurdo dessa medida, você faria uma cirurgia com um estudante do primeiro ano de medicina? Deixaria seu filho fazer? Então...
  • Como se não bastasse, as escolas receberam uma circular vinda das diretorias de ensino, onde o diretor é obrigado a colocar eventual em sala de aula, ou na falta de um ir ele mesmo dar aula. 
  • Alguns pais estavam se recusando a deixar seus filhos irem para escola apenas para matar o tempo, uma vez que essas aulas com eventuais não estão acontecendo de fato. A resposta veio na lata, as escolas receberem um documento da secretaria da educação dizendo que se não levasse seus filhos na escola, o conselho tutelar seria acionado. 
Além dessas ações de assédio moral, o nosso governador insiste em ignorar a greve dos professores, dando declarações na mídia de que a greve não existe ou que todo esse movimento é injustificado. 
Ora, se depois de tudo o que foi relatado aqui, alguém em sã consciência concordar com essa estupidez do governador Geraldo Alckmin (PSDB), receio que o futuro do nosso sistema de ensino não só está comprometido, como não existe. Morreu e nos esquecemos de enterrá-lo.



A pauta completa no cartaz da APEOESP:


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